Correr parece fácil, mas não é

Anne Dias
Adicionada em 19 de setembro de 2019
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Correr é fácil. E muito difícil, ou muito difícil…

Se você olhar uma pessoa correndo, certamente deve pensar: “Tá fácil”. Ainda que seja o queniano Eliud Kipchoge, que já venceu as maratonas de Londres, Chicago, Berlim e Roterdã, com dois pingos de suor na testa. Eu contei. Mas juro que é difícil — fácil fosse e estaríamos todos nós correndo a 20 km/h por duas horas sem parar.

Mas a impressão que todo mundo tem é que correr é fácil. Basta colocar um par de tênis e ir. No fundo, no fundo, é. Mas não é. A começar pelo tênis. Há tantos modelos disponíveis, que a indústria automobilística ficaria com inveja — e olha que deve haver uns 50 carros diferentes em uma mesma avenida.

Tanto que a pergunta mais recorrente de quem está começando a correr é: “Que tênis eu compro?” E minha resposta padrão é: “Não faço ideia”. Primeiro porque não sou ortopedista. Segundo porque não conheço seu pé. Terceiro porque não sei quais são seus objetivos — se você quer fazer prova longa, curta, rápida ou subir montanhas. Quarto, porque não sou ninguém para indicar tênis para alguém. Mais ou menos sei o que funciona para mim.

E a coisa vai piorando. Correr só num tipo de terreno pode te lesionar. Correr ouvindo música te rouba o foco. Sem música é um tédio sem fim. Treinar em jejum ou comer quatro ovos antes? Esse monte de suplementos, como proteínas, repositores, aminoácidos, funciona mesmo? Inspira pelo nariz, solta o ar pela boca na mesma velocidade das passadas ou mais lento? Beber água a cada 20 minutos de treino. Mas devo parar para beber
ou vou bebendo e correndo e seguindo a canção? Todo corredor deve fazer fortalecimento, seja com musculação, seja no funcional.

Não vou nem falar do emocional. Mentira, vou sim. Filho doente, problemas no trabalho, cobrança de cliente, prazo apertado para entrega de projeto, carro quebrado, fora da namorada, bolsa do MBA que não sai, grana curta, obra de casa parada. Qualquer coisa dessas, entre outros milhares, atrapalha o treino.

Não só atrapalha, mas você vai descontar nele — que é melhor do que descontar em quem você ama. E os 10 km da quarta-feira vão pro saco. Que saco. Então, o que era uma corridinha vira um monstro gigante de sete cabeças. Mesmo fazendo tudo certinho você ainda pode ter alguma lesão, muita preguiça e encheção de saco de outro corredor que adora ficar comparando o tempo dele com o seu.

E, apesar de tudo isso, vai haver alguém achando que correr é moleza. Que é só calçar o tênis e ir. Talvez essa pessoa esteja certa e todo este texto, errado. Fato é que essas coisas acontecem. E proteger o treino é a vingança de todo corredor. Porque tenho para mim que, mesmo para o Kipchoge, é difícil. E só ele sabe quanto lhe custam aqueles dois pingos de suor na testa.

Anne Dias

Anne Dias

Jornalista com especialização em economia e com nove meia maratonas no currículo: duas W21, Meia Maratona das Pontes (Brasília), Disney, Corpore, São Paulo, Uberlândia, Porto Alegre e duas Golden 4 Asics. Concluiu também duas maratonas: Nova York e Buenos Aires. E não pretende parar.

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